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Guetos
urbanos
Douglas
Vieira de Aguiar
A
implantação de conjuntos habitacionais em áreas centrais da capital gaúcha
suscita o debate sobre o manejo do espaço público e as práticas sociais
daí decorrentes e mostra que o aspecto espacial desses projetos pode
impedir a inclusão social de seus moradores
Ao contrário
do que ocorreu nos anos 60 e 70 quando, sob o patrocínio do BNH (Banco
Nacional da Habitação), construiu-se em larga escala nas periferias
urbanas, hoje se percebe uma tendência predominante de implantação dos
projetos de habitação para população de baixa renda em áreas mais
centrais das cidades. Parece haver um generalizado reconhecimento da
importância das condições de acessibilidade e centralidade na
implementação da habitação de caráter social, em particular, e de
ambientes urbanos saudáveis em geral.
O caso de
Porto Alegre é emblemático nesse aspecto. Por mais de uma década sob
uma administração municipal de esquerda, essa cidade parecia ter as
condições ideais para a implementação do que poderia ser denominado o urbanismo
da centralidade. A discussão crítica de dois casos – o Núcleo
Planetário e o Núcleo Lupicínio Rodrigues – mostra, no entanto, uma
história diferente. Esses conjuntos habitacionais, ambos concluídos
recentemente pela municipalidade, apesar de seu alto grau de centralidade,
têm evidenciado enormes dificuldades na realização desse urbanismo
progressista.
O fim
da rua
O
Núcleo Planetário tem localização urbana privilegiada no bairro de
Santana, vizinho a ruas de tradicional ocupação de classe média e
média alta, o que aparentemente propiciaria uma aproximação natural
entre moradores do núcleo e moradores do bairro. Curiosamente, o projeto
não se aproveita dessa condição. Ao contrário, nega-a, criando uma
espécie de bolsão de segregação a um só tempo vizinho e apartado do
bairro. Seria essa uma estratégia projetual deliberada? Intencional ou
não, o fato é que o padrão urbano introduzido pelo novo núcleo
habitacional é exótico se comparado com o bairro onde se insere e com a
cidade em geral. Sua configuração espacial labiríntica, constituída
por becos estreitos e tortuosos, difere por inteiro do bairro existente,
cujo espaço público é majoritariamente constituído por ruas largas e
longas.
A
articulação entre o espaço público gerado pelo conjunto e o espaço
público do bairro é particularmente impactante quando analisada sob a
óptica da prática social: constrange a presença de estranhos e promove,
via desenho urbano, a segregação social. Nesse aspecto, o modo como o
Núcleo Planetário se liga à rua Santa Terezinha é decisivo. No arranjo
espacial proposto, um dos blocos do conjunto habitacional literalmente
obstrui a caixa da rua, ignora a presença desta e, não se sabe se
deliberadamente ou por acidente, transforma num beco residual justamente
aquele espaço que seria o principal elo de ligação do empreendimento ao
coração do bairro. Seria esse um resultado almejado, produto de uma
intenção de projeto? Uma tentativa de usar a arquitetura para evidenciar
o contraste social? Ou seria um subproduto projetual inesperado?
Inferno
Passados
dez anos desde a construção do Núcleo Planetário foi recentemente
inaugurado o Núcleo Lupicínio Rodrigues, também localizado em área
central, no não menos tradicional bairro de Menino Deus – outro caso de
renovação de área deteriorada por urbanização informal com
manutenção dos moradores no local. Desta feita, porém, a prefeitura
esmerou-se no aspecto cosmético: a ornamentação emprega revestimentos
cerâmicos ao modo do edifício de apartamentos projetado e construído
para a classe média, e há um grande painel em mosaico que homenageia o
compositor que empresta nome ao núcleo.
Sob o aspecto
espacial, no entanto, o projeto tem comprometimentos. Seguindo a
tendência já observada no Núcleo Planetário, o arranjo espacial do
Lupicínio Rodrigues foi concebido de modo a criar um gueto urbano, uma
porção de espaço público segregado do entorno imediato. O bairro de
Menino Deus, assim como o bairro de Santana onde foi implantado o Núcleo
Planetário, tem seu espaço público configurado ao modo da cidade
tradicional, de quarteirões em xadrez, com portas e janelas emoldurando o
espaço das ruas.
Essa lei
elementar e ancestral do espaço público é aqui rompida. A rua frontal
ao núcleo – nesse caso, uma praça – é ignorada e a maior parte das
edificações que compõem o Lupicínio Rodrigues é voltada para um beco
interno, produto de uma forma espacial introvertida. A implantação do
conjunto dispôs as paredes laterais dos edifícios, na verdade empenas
cegas, voltadas para a praça. Portanto, a contribuição do novo
empreendimento à praça é majoritariamente dada por muros opacos. O
beco, uma espécie de anel interior, é hoje conhecido como
"inferno". O tráfico de entorpecentes, aspecto pelo qual o
local é desde há muito notório, encontrou nessa arquitetura a
espacialização propícia. Repete-se a questão: seria isso intencional
ou um subproduto projetual inesperado?
Protecionismo
via desenho urbano
Os
casos acima comentados sugerem questionamentos. Muito embora para os
moradores desses empreendimentos a situação atual seja, em tese, melhor
que a anterior, quando residiam em casebres, o vislumbre daquilo que
poderiam ser esses conjuntos se adequadamente pensados e desenhados serve
como fermento para futuras intervenções.
Há dois
aspectos, ambos associados às práticas sociais envolvidas, que vêm à
tona. O primeiro é morfológico; ou seja, refere-se ao tipo de forma
urbana gerada por esses novos conjuntos habitacionais. O outro é imobiliário,
dado pela dinâmica urbana naturalmente associada às forças de mercado.
No aspecto
morfológico, ambos os casos têm como premissa o fato de os núcleos
habitacionais estarem implantados em bairros cuja forma espacial é
bastante precisa e inteligível, baseada na tradicional malha urbana de
ruas em xadrez, numa composição oxigenada por vias largas e longas.
De modo
contrastante, a forma espacial do ambiente público verificada nos dois
conjuntos é tortuosa, acanhada do ponto de vista dimensional, suscitando,
inevitavelmente, a seguinte questão: por que introduzir, ou enxertar, num
sistema espacial tradicional há tanto tempo vigente uma solução
espacial exótica, fragmentada e labiríntica? Haveria a intenção de
enfatizar essa comunidade ou esse lugar pela composição de um desenho
urbano contrastante com o entorno e, em conseqüência, exacerbar o
contraste social a partir do tratamento espacial ou arquitetônico?
Do ponto de
vista da dinâmica urbana, naturalmente associada às leis do mercado
imobiliário, esses novos núcleos habitacionais apresentam uma limitação
de fundamento. Esses imóveis não podem ser comercializados por seus
moradores. São juridicamente objeto de uma cessão de uso por tempo
determinado, 30 anos ao que se sabe. O fato de essas pessoas não serem
proprietárias e, assim, não poderem dispor desses imóveis parece ser
uma tentativa do poder público de impedir uma "expulsão
branca", via lei natural do mercado imobiliário.
Passados os
anos, contudo, os efeitos desse paternalismo são ambíguos. Por um lado,
as transferências de imóveis não são evitadas, pois as pessoas, muito
embora impedidas de realizar uma venda legal, escriturada, simplesmente
vendem a chave, da mesma forma que o comprador simplesmente paga pela
chave. E assim ocorrem os negócios no mundo da informalidade.
Lamentavelmente,
a chave é em geral passada por valores aviltantes se comparados ao valor
corrente dos imóveis nesses bairros. Ao final, o protecionismo torna-se
desastroso para o lugar no momento em que é rompida a dinâmica imobiliária
natural da cidade, baseada no valor econômico da localização urbana. Os
moradores, por não se sentirem proprietários, têm, em geral, pouco ou
nenhum cuidado com suas casas e, principalmente, com o local. O espaço público
exibe, por toda parte, decadência e deterioração. Exatamente o oposto
do que seria lógico esperar quando da inserção de um núcleo
habitacional para pessoas de baixa renda em uma área urbana privilegiada.
Correndo
os riscos
O
resultado desse conluio de equívocos urbanísticos e jurídicos faz com
que esses lugares que deveriam ser exemplos de renovação urbana e
recuperação social sejam, ao contrário, exemplos de segregação
espacial e degradação social. É lamentável que oportunidades tão
perfeitas como essas de emprego dos recursos da arquitetura e do urbanismo
para melhoria social sejam desperdiçadas por equívocos disciplinares e
ideológicos. Ficam, no entanto, as lições para intervenções futuras.
Que, então,
as estratégias urbanísticas e jurídicas a serem adotadas caminhem na
direção de integrar as populações socialmente emergentes à cidade
preexistente, ainda que se corra o risco da ocasional "expulsão
branca"...
Bibliografia
ALEXANDER,
C. (1965). A
city is not a tree. Em Architectural Forum, New York, nº 2, Vol. 122.
AGUIAR,
DV. (1991). Grid Configuration and Land Use, PhD Thesis, Bartlett School,
UCL.
AYMONINO,
C. (1970). El significado de las ciudades. Barcelona:
Blume.
HILLIER
et al. (1993). Natural movement in Environment and Planning B, London, nº
1, Vol. 20.
LEFEBVRE,
H. (1969). El Derecho a la Ciudad. Madrid:
Peninsula.
Douglas
Vieira de Aguiar - (aguiardouglas@hotmail.com)
é arquiteto formado pela UFRS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul)
em 1975, e PhD pela UCL (University College London), Inglaterra, em 1991.
Atualmente leciona na UFRS
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Irib - Instituto de Registro Imobiliário do Brasil
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