14/02/2007 - n. 2839AUDIÊNCIA PÚBLICA
AP REGULARIZAÇÃO FUNDIÁRIA - II
Autoridades do Judiciário, Legislativo
e Executivo, registradores e demais participantes da AP fazem propostas para a
regularização fundiária em São Paulo
 |
| Venício Salles, Sérgio Jacomino, George Takeda, Júlia Moretti, Patricia
Ferraz, desembargador Gilberto Passos de Freitas, Helvécio Castello, Lair Krähenbühl,
José Américo, Mário Reali, Ademar Fioranelli e Flauzilino Araújo dos Santos |
O
Boletim Eletrônico IRIB, BE 2836 publicou a realização da audiência
pública promovida pelo Instituto de Registro Imobiliário do Brasil, Irib, no último
dia 2 de fevereiro, em São Paulo, SP, para a discussão de normas a serem editadas
pelo Tribunal de Justiça de São Paulo, visando regulamentar a regularização fundiária
no estado.
Apoiada pelos três poderes em todas as instâncias, a idéia de
regularização fundiária cresce a cada dia no país como uma possibilidade efetiva
de melhorar as condições de vida da população de baixa renda a partir de obras
de infra-estrutura nos loteamentos e da outorga de títulos de propriedade.
O
More Legal, instrumento que vem sendo aplicado há dez anos na regularização de
imóveis da área urbana de Porto Alegre, é um dos pioneiros na legalização da moradia
popular com direito a título de propriedade, como forma de inclusão socioeconômica.
O
site do
PNUD Brasil – Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento – divulga
(5/2/2007) que um projeto de regularização fundiária para a Rocinha, no Rio de
Janeiro, uma das maiores se não a maior favela do mundo, pretende atender, ao
todo, 8,4 mil famílias. O Ministério das Cidades apóia e participa do projeto
e seus técnicos afirmam que o título de propriedade permite que o bem possa ser
alienado, o que possibilita que a pessoa faça um empréstimo, bem como dá a certeza
de que o investimento na propriedade ficará para os filhos.
O poder da
posse” é título de pequena nota da revista Veja (30/12/06), o que mostra que o
assunto já chegou à grande imprensa. Ao noticiar que o governador do Rio, Sérgio
Cabral, pretende regularizar propriedades na Rocinha, a publicação repercute as
idéias do economista americano Douglas North – prêmio Nobel em 1993 – e do peruano
Hernando de Soto, de que títulos de propriedade proporcionam segurança e estabilidade
para a população mais pobre na medida em que dão acesso a empréstimos e a outras
formas de crédito.
A preocupação da Corregedoria Geral da Justiça do Estado
de São Paulo em editar um provimento para regulamentar a regularização fundiária
no estado acompanha essa tendência, que, aliás, é mundial, e mereceu toda atenção
do Irib, que se prontificou a realizar audiência pública sobre o assunto, a fim
de obter a participação de todos os envolvidos no processo.
O
BE
entrevistou autoridades, registradores e demais convidados presentes na audiência
pública, para conhecer os diferentes enfoques e as propostas para a facilitação
da regularização fundiária em São Paulo. Confira.
Desembargador Gilberto
Passos de Freitas, corregedor geral de Justiça de São Paulo, diz que a meta de
todo o cidadão é ter um títuloBE
– O senhor disse que os poderes Legislativo, Executivo e Judiciário estão
irmanados nessa iniciativa de regularização fundiária no estado de São Paulo.
Em razão disso, o senhor acha que esse é o momento ideal para a regularização
acontecer? Gilberto Passos de Freitas – Está tudo caminhando
para isso. Temos tido vários
contatos com os Poderes Executivo e Legislativo.
Esse é o pontapé inicial. A iniciativa do Irib em fazer esta audiência pública
foi fantástica. Na maioria das vezes, a sociedade não consegue chegar às autoridades
para fazer seus pedidos. Essa área da habitação é muito importante em razão dos
problemas que acarreta e que envolvem os aspectos social e ambiental. A regularização
dos imóveis vai ser um passo muito grande.
BE – Mas existem muitas
dificuldades do ponto de vista jurídico... Gilberto Passos de Freitas
– Em alguns aspectos haverá a necessidade de se proceder a alterações legislativas.
A Corregedoria terá de alterar alguns provimentos. É por isso que pedimos a colaboração
dos registros de imóveis. Esse entrelaçamento dos poderes, das autoridades que
cuidam da matéria, é fundamental porque, às vezes, a lei dificulta a regularização,
como no caso dos mananciais que precisam ser preservados, por exemplo.
BE
– Quais as mudanças, em termos concretos, que o senhor almeja para o estado
de São Paulo? Gilberto Passos de Freitas – Quanto mais imóveis
conseguirmos regularizar será fundamental. Depois, traçar normas para evitar que
ocorram outras invasões e irregularidades. Nesse sentido, um problema que vemos
a todo o momento são as ocupações na Serra do Mar, precisamos evitar a ocupação
em áreas de risco. A colaboração do secretário de Habitação e do Legislativo vão
ajudar muito.
BE – O projeto More Legal, do Rio Grande do Sul,
pode ser um modelo para São Paulo? Gilberto Passos de Freitas –
A Corregedoria deseja facilitar a regularização, no entanto, aqui a situação diferente.
São Paulo é outro mundo, milhares de pessoas ocupam áreas de mananciais, áreas
de risco, a Serra do Mar. O More Legal é um trabalho bonito, mas o estado do Rio
Grande do Sul tem menos habitantes e mais área rural. São Paulo tem muitas favelas
e loteamentos irregulares.
BE – O provimento vai abordar a questão
dos loteamentos? Gilberto Passos de Freitas – Vamos procurar
disciplinar a regularização fundiária, alguns aspectos de loteamentos, as ocupações
de modo geral.
BE – O senhor acha que a regularização pode mudar
o aspecto visual e físico da cidade? As pessoas vão cuidar mais das suas habitações?
Gilberto Passos de Freitas – Trabalhei com a Lei do Parcelamento do Solo,
a lei 6.766/79, e participei de um grupo de estudos de urbanização de favelas.
Foram vistos todos esses aspectos. Verificamos que as pessoas vinham da zona rural,
principalmente de outros estados, compravam seus lotes sem os equipamentos mínimos
necessários. Hoje, vemos favelas sem nenhuma infra-estrutura.
BE – O
que o senhor achou da presença das associações de moradores na audiência pública?
Gilberto Passos de Freitas – Magnífica. Temos feito audiências públicas na
Corregedoria e me emociona ver a sociedade ir lá reclamar, criticar, elogiar ou
fazer sugestões. A audiência pública é uma oportunidade porque as pessoas, infelizmente,
não têm acesso à autoridade.
BE – Isso mostra que ficou patente
o interesse da população e a conscientização das pessoas de que é preciso regularizar?
Gilberto Passos de Freitas – Alguém disse, durante a audiência, que regularização
tem título. Isso é importante. Estamos fazendo alguns eventos visando à regularização
do cidadão que não tem documento, registro, essa é uma questão de cidadania.
BE
– No caso do imóvel, o senhor acredita que o título ajuda a melhorar a
situação econômica das pessoas, ou pelo menos garante mais recursos para a obtenção
do crédito? Gilberto Passos de Freitas – Com certeza. Essa
é a meta de todo o cidadão. Ter um título, um endereço, é muito importante.
“Os três poderes estão mais do que sensibilizados, estão envolvidos com a proposta
de regularização fundiária” – Lair Krähenbühl, secretário de Habitação do estado
de São Paulo BE
– Qual sua opinião a respeito da iniciativa da audiência pública?Lair
Krähenbühl – Sinto-me um homem privilegiado. O evento e os céus estão conspirando
a nosso favor. As coisas estão acontecendo, está havendo um círculo virtuoso da
construção civil, especialmente com a mudança da Constituição estadual. No governo
federal temos a expectativa de mudança com o projeto de lei 3.057, que altera
a lei 6.766/79.
Há uma vontade política do governo do estado e de todos
os atores que vão nos ajudar numa política conseqüente. O que vamos precisar agora
é de uma união em torno de uma proposta a ser apresentada à Corregedoria, para
que possamos colocar em prática o maior projeto que o estado já teve. São Paulo
terá o privilégio de sair à frente pela competência dos registradores, pela competência
dos atores envolvidos, das câmaras municipais, assembléias legislativas e do Judiciário.
Os três poderes estão mais do que sensibilizados, estão envolvidos com a proposta
de regularização fundiária. Também não podemos esquecer que, nessa audiência,
temos a vontade popular representada. Os nossos patrões são a população. Cabe
ao estado prover essa indução política.
BE – O senhor considera
que os custos inerentes à regularização são um problema?Lair Krähenbühl
– Considero, não acho que não seja um problema. Os custos são um problema
por conta até do próprio Estado. No regimento de custas, mais de 32% são despesas
que não tem a ver com o registro. Portanto, acho que o Estado tem que fazer sua
parte e os registradores também, para que possamos realizar um trabalho formal.
É fundamental que todos os registros de imóveis estejam informatizados. Uma grande
parte dos cartórios não tem condições para isso, mas precisamos fazer um esforço
para tentarmos viabilizar a informatização. Entendo e respeito a iniciativa privada,
não é possível tirar recursos dos cartórios, dos registradores, quando não têm.
É ingênuo se pensar nisso, tem de haver uma política compensatória de impostos,
ou através do imposto de renda, para que possamos fazer esse papel social tão
importante.
BE – Será possível criar uma comissão para discutir
idéias que possam viabilizar economicamente a regularização sem penalizar demasiadamente
os registradores?Lair Krähenbühl – Eu não seria o portador
de uma condição de penalização. O governador, nos próximos dias, divulgará suas
propostas no que se refere a essa questão, incluindo as custas. É importante sim
que possamos estabelecer um contato para que daqui a alguns dias tenhamos uma
diretriz. Da nossa parte, já tivemos um contato com a doutora Patricia Ferraz,
falamos sobre nossa preocupação e sobre a linha que vamos trabalhar.
BE – O senhor tem números da irregularidade habitacional no estado de São
Paulo?Lair Krähenbühl – Infelizmente temos um grande número.
Temos uma preocupação muito grande quando consideramos que 19% das propriedades
têm algum grau de irregularidade, ou seja, a cada cinco propriedades uma família
tem problemas com a regularização.
BE – Qual a meta que o governo
do estado pretende atingir no que se refere a esses índices?Lair
Krähenbühl – Esta gestão será um pouco diferente, vamos primeiro realizar
para depois ver o que fizemos, ao invés de prometer. Essa será a prioridade, 60%
das minhas energias estão colocadas nesse processo.
BE – A prefeitura
de Diadema, SP, baixou o ITBI para meio por cento, de fevereiro a maio, para estimular
a regularização dos contratos de gaveta. Como o senhor vê essa iniciativa?Lair
Krähenbühl – Essa idéia é muito inteligente. Esse modelo de mudança poderia
ser proposto por meio de algumas mudanças legislativas. Isso não é competência
apenas do estado e municípios.
BE – O senhor considera que para
a regularização é imprescindível a participação do governo do estado?Lair
Krähenbühl – Em alguns casos considero, como por exemplo, no que diz respeito
às áreas de mananciais que devem ser protegidas.
Ulrich Hoffmann, secretário-adjunto
da Habitação e presidente do Graprohab, Grupo de Análise e Aprovação de Projetos
Habitacionais: “estamos tomando medidas para agilizar os trabalhos de regularização”"Se,
de um lado é muito importante a iniciativa do secretário Lair Krähenbühl e do
governador José Serra de priorizar a regularização fundiária, também é fundamental
a iniciativa do Irib de encaminhar uma proposta ao Judiciário nesse sentido. Isso
vai permitir uma revolução nesse
campo, vamos iniciar um processo que transformará
a cidade real em uma cidade legal.
O Graprohab está tomando várias medidas
para agilizar os trabalhos de regularização. Por determinação do secretário estamos
conversando com todas as instituições, entidades, municípios e profissionais para
obter deles críticas que possam melhorar nossa atuação."
Sérgio
Mendonça, chefe de gabinete da secretaria de Habitação do estado de São Paulo:
“o evento do Irib é representativo de uma iniciativa que só pode ser aplaudida.”
BE – Qual sua opinião sobre a audiência pública? Sérgio
Mendonça – Audiências públicas dessa natureza são essenciais para que possamos
avançar nessa questão da desburocratização de determinados procedimentos. Um dos
decretos do governador José Serra é exatamente no sentido de retirar esses gargalos
da administração pública que impedem o desenvolvimento e o desenvolvimento com
sustentabilidade ambiental. Portanto, a importância desse provimento e o envolvimento
do Judiciário nessa questão são essenciais para que possamos avançar, para que
essa população que tem direito à moradia, que é um direito fundamental, também
consiga compreender que a questão ambiental não pode ficar relegada a segundo
plano. Não é só o direito à moradia, mas direito à moradia com qualidade de vida.
Existe vontade política do secretário Lair Krähenbühl no sentido de eliminar a
burocracia e, além disso, formar parcerias com os municípios. O evento do Irib
é representativo de uma iniciativa que só pode ser aplaudida.
BE – O que o senhor levaria de sua experiência no Ministério Público para
a Secretaria de Habitação? Sérgio Mendonça – Além dos 25 anos
de experiência na atividade como promotor, minha especialização acadêmica é em
Direito ambiental. Esses dois direitos são possíveis e passíveis de convivência
tranqüila, e um não exclui o outro, muito pelo contrário, eles se complementam.
Portanto, a experiência de Ministério Público na área ambiental vai me propiciar,
no âmbito da regularização fundiária, a visão de desenvolvimento sustentado, a
compatibilização entre o direito à moradia, porém sustentável do ponto de vista
ambiental.
Juiz Venício Antonio de Paula Salles entende que um procedimento
ágil feito pelo próprio cartório de registro de imóveis atenderia melhor o usuário
BE – O que o senhor acha dessa iniciativa de promover uma audiência pública
para resolver a questão da regularização fundiária no estado de São Paulo?
Venício Salles – A iniciativa do Irib é importante porque de vez em quando
é necessário colocar na mesma mesa de discussão todos os interlocutores para que
se chegue a um consenso. Aqui temos um consenso e isso é muito difícil. Às vezes
nem as pessoas envolvidas sabem exatamente onde a “roda pega”, onde está o gargalo,
onde o programa de regularização não consegue superar as burocracias que ele mesmo
cria. Aqui falou-se sobre as questões ambientais, o município, o Estado, os registradores,
o Judiciário, todos eles têm sua parcela de culpa. Todos reunidos, num movimento
como este, empenhados na superação dos entraves, é o que precisamos.
BE
– O processo de regularização deve ir para o Judiciário, ou isso dificultaria
o processo? Venício Salles – O Judiciário pode melhorar a
performance da regularização, mas temos de saber exatamente quando vamos nos socorrer
do Judiciário. Há circunstâncias da regularização fundiária que são quase insuperáveis.
Para elas, temos de procurar uma esfera de discussão mais credenciada, aí sim
entra o Judiciário. Não tem como o registrador receber um título imperfeito e
registrar, mesmo sabendo que quem assinou o título não é o proprietário, por exemplo.
Aí entra o Judiciário, mas não o jurisdicional e sim o administrativo. O processo
administrativo é muito mais rápido, formal e célere. Nesse sentido, o Judiciário
pode ser engajado para melhorar alguma performance. Mas seria muito bom se a regularização
de títulos fosse feita administrativamente.
BE – O provimento
poderia definir a forma de envolvimento do Judiciário? Venício
Salles – O provimento é apto a fazer isso, ele pode dar ao juiz corregedor
permanente prerrogativas, se considerar aquele título como do próprio proprietário.
Nesse caso, o registrador ficaria a vontade para registrá-lo.
BE – Essa
seria uma proposta que o senhor faria para o provimento? Tem alguma outra proposta
importante que o senhor gostaria de fazer constar do provimento?
Venício Salles – Essa é uma proposta que eu faria. Existem muitas propostas,
a mais séria é a proposta de regularização dos parcelamentos, principalmente aqueles
que já se encontram regularizados na própria prefeitura. Existem vários casos
desses que não conseguem acesso ao registro. Esse é o problema mais fácil de resolver.
BE
– Há um grande volume de parcelamentos já regularizados pela prefeitura?
Venício Salles – Estimamos que essa situação envolve cerca de 500 mil famílias
no município.
BE – Existem dois problemas, o primeiro é titular
a área e o segundo é regularizar essa área. Eventualmente, o registro vai mostrar
a área como um todo, portanto, serão dois processos. O senhor considera que, para
essa segunda etapa, tendo um título de domínio, é necessário incluir essa hipótese
no provimento, para que se possa dar conta da regularização dessas áreas?
Venício Salles – Isso não muda nada a regularização que a prefeitura faz.
A prefeitura vai ao local, mede a área, dimensiona as frações, os espaços públicos,
e tudo isso vai ter que entrar no cartório.
BE – Mas pode ser
por iniciativa do particular com aprovação municipal? Venício Salles
– Pode, é possível até pensar num procedimento bem ágil feito pelo próprio
cartório de imóveis, sabemos que isso é mais fácil para o usuário. Quando o cartório
não consegue, não pode, ou não é conveniente que ele faça, aí sim vai a juízo,
mas sempre que se puder deixar a regularização nos cartórios, é melhor.
BE
– Agora se vislumbra, por exemplo, os inventários extrajudiciais. Quando
o juiz requisita informações a outros órgãos públicos, ou quando libera, por alvará,
levantamento de recursos, enfim, medidas parecidas com essas, de relacionamento
com a administração, o Judiciário tem uma posição privilegiada. Ao deslocar essas
questões para o registro, o senhor acredita que poderão surgir algumas dificuldades?
Venício Salles – Podemos dar a referência da lei 10.931, que permitiu ao
usuário a escolha do caminho, judicial ou administrativo para a retificação. Havendo
essas dificuldades, o processo pode ser remetido do cartório de imóveis para o
juízo.
BE – O senhor proporia para o provimento um mecanismo
de eleição da via administrativa ou judicial-administrativa?Venício
Salles – Acho que a via administrativa atenderia aos interesses da coletividade.
Havendo dificuldades, o processo iria para juízo; não havendo, ficaria num procedimento
mais simples
e menos demorado.
Para a juíza Tânia Ahualli o processo
de regularização fundiária só iria para o Judiciário em caso de conflitoBE
– Qual a proposta que a senhora faz para tornar mais ágil o procedimento
de regularização fundiária? O Judiciário seria ou não envolvido?
Tânia Ahualli – De acordo com a proposta do próprio Irib, o Judiciário só
seria envolvido em casos nos quais houvesse dúvida fundamentada quanto à área.
BE
– Ou seja, o processo começaria no cartório e, em caso de dúvida, seria
levado para o Judiciário. Tânia Ahualli – Exatamente. Se não
puder ser resolvido no cartório, por ser muito conflituoso, aí sim, o processo
começaria no Judiciário. É como acontece agora com a retificação de área. Há retificações
de áreas simples que começam nos cartórios e se resolvem nos cartórios. As retificações
só vão para o Judiciário por opção da parte ou quando houver algum conflito insuperável
administrativamente. Concordo com essa inversão, acho que essa é a tendência hoje.
Se não precisar passar pelo Judiciário, que fique na esfera administrativa, que
se delegue essa atividade ao registrador.
BE – E como ficaria
a participação do estado? O município teria competência para aprovar o loteamento
ou o estado também teria de ser ouvido? Tânia Ahualli – Isso
tem de ser mais bem estudado, esse é o objeto da proposta. É inegável que o interesse
primordial é municipal. Os municípios têm características muito diferentes, mas
acredito que essa capacitação deve ser mais bem averiguada.
Patricia
Ferraz: “Estamos todos vivendo um momento muito especial, em 2007, no qual todos
os segmentos estão voltados para a regularização fundiária”Estou
muito satisfeita com o resultado da audiência pública, uma vez que tivemos a participação
de todos os segmentos que devem contribuir para a regularização fundiária, desde
representantes dos três poderes nas três esferas – União, estados e municípios
– como também expressiva participação popular.
Para mim, isso tem significados
importantes: o primeiro deles mostra o quanto é importante que as instituições
relacionadas aos estudos científicos – e o Irib é uma delas – precisam estar conectadas
com as necessidades da população. Não por acaso tivemos tantas pessoas ligadas
aos movimentos populares presentes nesta audiência pública. Segundo, mostra que
a regularização fundiária está na pauta do dia. Há uma grande demanda do cidadão
brasileiro que ainda não tem o seu título registrado – e que, portanto, não se
vê na qualidade de proprietário do imóvel onde reside. Além disso, é importante
que o Estado proporcione esse instrumento para a população, como garantia de acesso
à moradia e como meio de capacitação econômica do cidadão de baixa renda. E ainda,
especialmente, como instrumento de fomento ao desenvolvimento econômico sustentado
do país. Precisamos promover a mudança de padrão socioeconômico da maior parte
da nossa população.
Também é motivo de muita satisfação para nós, registradores,
que esse evento tenha sido tão prestigiado pelos representantes dos três poderes
do estado de São Paulo, uma vez que pudemos contar com as prestigiosas presenças
de seus melhores representantes: desembargador Gilberto Passos de Freitas, nosso
estimado corregedor-geral da Justiça de São Paulo; Lair Krähenbühl, secretário
estadual de Habitação; deputado estadual Mário Reali, um dos mais atuantes parlamentares
na área da habitação, que representou o presidente da Assembléia Legislativa do
Estado de São Paulo, Deputado Rodrigo Garcia. Também foi marcante para nós a presença
e a participação do vereador José Américo, bem como de vários prefeitos municipais,
representantes de diversos órgãos municipais, estaduais e da Secretaria do Patrimônio
da União. Estamos todos vivendo um momento muito especial, em 2007, no qual todos
os segmentos estão voltados para a regularização fundiária. Acho que é um momento
que precisa ser aproveitado por todos nós, para ajudarmos o país a dar um salto
de qualidade socioeconômica.
Quero destacar, ainda, a importância de termos
essa audiência pública retratada em ata notarial. A idéia foi obter um relato
absolutamente fidedigno por parte de quem tem atribuição legal para fazer isso,
o notário. Esse é um exemplo de utilização da ata notarial, um instrumento de
extrema importância e baixo custo.
“É preciso definir os requisitos
formais obrigatórios” – Sérgio Jacomino, registrador e diretor do IribBE
– Do ponto de vista dos registradores, o que seria essencial nesse provimento?
Sérgio Jacomino – O que não pode ficar de fora é a perfeita identificação
de todos os participantes do objeto sobre o qual versa a regularização, e sobre
que objeto vão se exercitar os direitos que a regularização vai proporcionar,
ou seja, a qualidade e a extensão desses direitos. Falando de forma técnica, é
necessário estar atento à especialidade subjetiva, à especialidade objetiva e
à especialidade do título. A grande dificuldade está em que o registro de imóveis
precisa sinalizar para toda a sociedade não apenas quem é o titular do direito,
mas também a qualidade e a extensão desses direitos, e a maneira que esses direitos
são exercitados, tendo em conta uma coisa precisamente individuada, o imóvel.
A grande dificuldade das ocupações informais é também certa flexibilidade na definição
desses direitos, das pessoas que estão envolvidas com esses direitos, e as coisas
sobre as quais esses direitos incidem. Por exemplo, a Constituição federal parecer
ter indicado que o título será conferido à mulher ou ao homem, ou a ambos, se
casados forem ou não, de forma que, teoricamente, pode ser titular de um direito
uma pessoa que não tenha perfeitamente definido o seu estado civil. Como se trata
de uma etapa preliminar da definição do cadastro para efeito de regularização,
considero que esse aspecto deve ser muito bem cuidado por quem solicita a regularização,
para que os problemas não possam repercutir como uma bomba-relógio no futuro,
em que as pessoas terão dificuldade de definir sua situação jurídica para efeito
de disponibilidade. Ou seja, se você consegue criar uma porta para a entrada,
tem que criar, de antemão, uma porta de saída, porque as pessoas titularizam esses
direitos por tempo indeterminado. Se vão dispor desses direitos no futuro, é preciso
que antes esteja perfeitamente definida a situação jurídica que guarda relação
com o bem.
BE – Como o provimento a ser editado pelo Judiciário
poderá ajudar concretamente? Sérgio Jacomino – Exatamente
definindo esse aspecto. Que regra vai imperar? É preciso definir quais os requisitos
formais obrigatórios. Por exemplo, para a qualificação das partes, basta o nome
ou é necessário comprovar, por documentos do registro civil, qual o estado civil?
O título vai ser conferido ao homem, à mulher, ou a ambos, se casados forem? Quando
a regra é que os titulares do direito sejam precisamente definidos no início de
todo o processo na entrada do sistema registral? Parece que há uma flexibilização
nisso porque, muitas vezes, o próprio estado civil das pessoas não está muito
bem definido, e aí a informalidade não está apenas nos imóveis, mas é um fenômeno
que alcança todas as dimensões jurídicas da sociedade. A pessoa pode ter uma união
estável, embora já tenha sido casada, ou pode ter havido uma separação de fato
e não houve a devida regularização do estado civil. Se tivermos pré-definida a
situação relativa às pessoas, ao direito e às coisas, facilita muito no sentido
de valorizar o que o registro publica. O registro deve publicar uma situação certa
e determinada, não uma possibilidade, que pode redundar, ao final, em custos para
definição da real situação jurídica dessas pessoas, do direito e da coisa. Se
por um lado temos de acomodar essa situação de informalidade que atinge mesmo
as relações pessoais, por outro lado não se pode esquecer que o registro público
atende a uma necessidade social de tornar pública, cognoscível, essa situação
jurídica. Se se potencializa a incerteza de entrada no sistema, ela será irradiada
e amplificada, o que é a negação da própria idéia de segurança jurídica.
Ademar Fioranelli, registrador: “o município deveria analisar a questão do meio
ambiente, super população, etc., antes da aprovação”BE
– Do ponto de vista do registro imobiliário, qual a proposta que o senhor
consideraria imprescindível constar no provimento? Ademar Fioranelli
– Acredito que a regularização feita diretamente entre o poder público e
o registro de imóveis facilita muito o ato. O registrador está apto a receber
essa documentação e deferir ou não a regularização sem precisar passar pelo crivo
do Judiciário. Isso é o que era feito no provimento 3/82, em que todas as regularizações
eram feitas pela prefeitura e diretamente no registro de imóveis. Esse provimento
acabou sendo revogado pelas normas de serviço, que passaram a exigir que a regularização
fosse feita diretamente na 1ª Vara de Registros Públicos. Ou seja, o Judiciário
recebe o processo e o envia ao cartório de registro de imóveis, que examina o
processo pela primeira vez e o remete para o juiz corregedor, que quer ouvir o
Ministério Público, uma vez que são processos que quase sempre dependem de perícia.
Nesse particular, acredito que as normas de serviços devem ser modificadas para
facilitar a regularização. As normas de serviço acrescentaram outros requisitos
que não eram exigidos nos provimentos da Corregedoria Permanente como, por exemplo,
a autorização do estado nas regularizações. Deveria ser o inverso, ou seja, a
prefeitura deveria ouvir o estado antes de aprovar essas regularizações. O procedimento
atual cria um impasse porque a aprovação do estado depende de outros requisitos
a serem atendidos no empreendimento. O que acontece é que o Judiciário tem de
ser acionado para dispensar a aprovação estadual, no entanto, as coisas deveriam
ser mais facilitadas entre o poder público e os próprios registradores.
BE
– Se o requerimento fosse direcionado ao cartório, somente chegariam ao
Judiciário os casos que o cartório não pudesse resolver? Ademar
Fioranelli – Exatamente, somente aqueles casos que o cartório não puder resolver.
Por exemplo, na falta de titularidade, naqueles casos em que o cartório verificasse
a possibilidade de prejuízo a terceiros, etc. Nesses casos, o cartório, evidentemente,
dentro do princípio da legalidade, não irá realizar. Porém, 90% dos casos são
realizados no cartório sem burocracia, sem tramitação morosa. O registrador é
o técnico mais qualificado para examinar o que ocorre, mesmo no procedimento judicial,
uma vez que ele é o primeiro a ser ouvido no processo de regularização.
BE
– O senhor acredita que seja o caso de se ouvir o Graprohab nesse procedimento
de regularização mais ágil? Ademar Fioranelli – Acho que não.
De acordo com orientação do próprio juiz da 1ª Vara de Registros Públicos, as
questões urbanísticas são de competência do município. Antes da aprovação, o município
é que deveria analisar a questão do meio ambiente, super população, etc., e não
se impor ao registrador que exija, no momento da regularização, a aprovação do
estado, quando muitas vezes é impossível a adaptação do empreendimento às regras
do estado.
Vereador José Américo revela: “temos quase a metade da cidade
de São Paulo irregular”O
Irib está de parabéns pela realização da audiência pública, que é extremamente
positiva ao abordar um tema que precisa ser discutido com urgência em nosso país,
em nosso estado e em particular, na cidade de São Paulo. Como vereador da cidade
de São Paulo, considero esse tema estratégico, oportuno e urgente.
Temos
quase a metade da cidade de São Paulo irregular, então a criação de instrumentos
facilitadores para a regularização fundiária, de mecanismos legais como o PL 3.057/2000,
são fundamentais para que se possa criar caminhos para a regularização fundiária
urbana.
Dentre esses caminhos, há um procedimento muito importante previsto
no PL 3.057, que é o fortalecimento do poder local. Isso significa trazer para
o município o poder de favorecer e facilitar a regularização fundiária.
A
audiência pública tratou muito dessas questões e também há que se destacar a qualidade
técnica da AP, pois considero muito adequada a participação tanto dos técnicos
quanto de lideranças de movimentos sociais, que se expressaram livremente, de
maneira bastante rica. Ressalto a qualidade técnica das intervenções e a objetividade
das propostas, tão bem conduzidas pela diretora do Irib, Patricia Ferraz.
Sinto-me
orgulhoso em participar de audiência pública de tão alto nível, acho que a contribuição
foi muito louvável. Estou muito interessado em conhecer o relatório final para
poder refletir sobre as propostas.
“O Judiciário deveria ser envolvido
na regularização somente em caso de dissenso entre a apreciação do oficial e o
entendimento do interessado” – Flauzilino Araújo dos Santos, presidente da ArispBE
– Qual sua opinião sobre essa iniciativa de audiência pública, envolvendo
os três poderes e as associações de moradores? Essa iniciativa vai ajudar a alcançar
os resultados almejados? Flauzilino Araújo – Vejo a iniciativa
como de suma importância. Nós, registradores, vivemos num ambiente muito técnico.
O ambiente da audiência pública permite-nos ouvir pessoas de outras vertentes,
como os arquitetos e os empresários de imóveis, bem como permite-nos ouvir as
associações de moradores e militantes de movimentos dessa natureza. Portanto,
acho que essa mistura enriquece o pensamento para se encontrar uma solução viável
para a regularização fundiária.
BE – Parece que existem muitas
dificuldades técnicas e jurídicas para a regularização fundiária. Será uma tarefa
árdua? Flauzilino Araújo – São dificuldades que podem ser
superadas por meio de decisões de ordem administrativa e política das autoridades
competentes, como por exemplo, no que diz respeito ao meio ambiente.
BE
– Seria necessária uma mudança legislativa para se conseguir a regularização?
Flauzilino Araújo – Penso que os instrumentos legais que temos dão suporte
suficiente para essa regularização, instrumentos que permitem a discricionariedade.
Não precisamos de instrumentos que obriguem o administrador público a fazer a
regularização, já temos instrumentos que permitem que ele a faça. Há uma boa vontade
generalizada para que isso aconteça.
BE – Qual proposta o senhor
considera fundamental para constar do provimento que vai viabilizar a regularização
fundiária? Flauzilino Araújo – Uma proposta que não foi colocada
aqui de forma objetiva, mas é muito importante para a regularização fundiária
seria que a regularização fosse apreciada diretamente pelo oficial de registro.
Durante muito tempo a regularização foi proposta pelo município ou por associações
de moradores, ou ainda, no caso de loteamentos irregulares, pelo próprio loteador.
Toda a apreciação era feita diretamente no registro de imóveis. Houve uma alteração
e hoje essa solicitação é feita para o juiz corregedor-permanente que, por sua
vez, encaminha o processo ao cartório para sua manifestação.
BE – O
processo ficou menos ágil? Flauzilino Araújo – Sem dúvida,
porque existem mais trâmites, mais caminhos a serem percorridos. Mas, independentemente
da questão da agilidade, penso que o oficial está tecnicamente preparado para
fazer essa apreciação. Apenas em caso de dissenso entre a apreciação do oficial
e o entendimento do interessado, quer seja o poder público, associação de moradores
ou loteador, é que, em grau de apreciação superior, o processo iria para o juiz
corregedor, já contando com todas as correções. Isso facilitaria muito o processo.
O Judiciário seria envolvido somente em caso de divergência, uma vez que o cartório
já registra loteamentos irregulares, aprecia todas as aprovações, limitações do
loteamento irregular. Hoje, na regularização, o requerimento é feito para o juiz.
BE
– Com a inversão desse processo, tudo que pudesse ser resolvido no cartório
não chegaria até o Judiciário. Flauzilino Araújo – Exatamente.
Além de desafogar o Judiciário – uma vez que essas funções são meramente administrativas
e podem ser resolvidas no âmbito da administração, pelo oficial do registro de
imóveis –, esse seria um passo importante rumo à desburocratização do processo
da regularização fundiária.
“O Judiciário foi feito para dirimir conflitos
e não para homologar” – Helvécio Castello, presidente do IribBE
– A audiência pública está correndo como o senhor esperava?
Helvécio D. Castello – Está muito melhor do que eu esperava. Esta
é
uma oportunidade excepcional de juntar os atores do grande processo de regularização
fundiária, processo esse que envolve o poder Legislativo, as esferas federal,
estadual e municipal, o poder Executivo estadual e municipal, o poder Executivo
federal parcialmente representado pela Secretaria de Patrimônio da União, o poder
Judiciário local, etc. Estou muito feliz com o desenrolar da audiência pública
e com a representatividade da sociedade civil. Esse processo não vai afetar somente
a cidade de São Paulo, mas seus efeitos serão irradiados para todo o país. Daqui
sairão, certamente, propostas para o Congresso nacional. O assessor do deputado
José Eduardo Cardoso pediu o relatório final da AP para trabalhar junto ao Congresso;
o deputado Mário Reali saiu daqui disposto a repercutir o assunto na Assembléia
Legislativa, ou seja, todos querem a mesma coisa, fazer a regularização fundiária.
Para isso, precisamos remover uma série de entulhos burocráticos.
BE
– O senhor acredita que esse provimento vai conseguir dar conta de todas
as propostas que estão sendo feitas? Helvécio D. Castello –
O provimento, isoladamente, não. O provimento será uma das ferramentas necessárias
para que todos os atores envolvidos no processo possam cumprir a verdadeira finalidade
desta discussão, qual seja a finalidade social. O imóvel irregular é um bem inexistente,
não gera riqueza, não permite que as pessoas se capacitem economicamente. Ouvi
de dois importantes membros do poder Judiciário – doutores Venicio Salles e Tânia
Ahualli – a manifestação de que não se deve buscar a máquina do Judiciário para
discutir questões em que não há conflito. O Judiciário foi feito para dirimir
conflitos e não para homologar.
BE – O presidente da Arisp, Flauzilino
Araújo dos Santos, entende que uma forma de afastar do Judiciário os casos de
mera homologação seria inverter o processo que hoje é feito em São Paulo, ou seja,
o requerimento para a regularização seria feito para o registrador e este remeteria
para o Judiciário somente o que não pudesse se resolvido no próprio cartório.
O senhor concorda com essa posição? Helvécio D. Castello –
De forma absoluta. A legislação brasileira caminha para isso. A lei 10.931/2004
trouxe a retificação administrativa para os registros imobiliários e hoje, não
havendo conflitos e estando todos os confinantes de acordo, não é necessário o
processo judicial. Um processo que levava um ano e meio para obter a homologação
do Judiciário, agora é resolvido no cartório em até 72 horas. A recente lei 11.441/2007,
por sua vez, dispõe sobre separação, divórcio, inventário e partilha consensuais,
feitos por escritura pública, sem homologação do Judiciário. O Brasil está caminhando
para a valorização do sistema notarial e registral para que ele possa exercer
o papel de pré-instância, de mediador de conflitos e de desafogador da máquina
do Judiciário.
BE – O que o senhor considera essencial constar
no provimento, de forma a facilitar o processo da regularização fundiária, do
ponto de vista do registro imobiliário? Helvécio D. Castello –
A permissão explícita da Egrégia Corregedoria Geral da Justiça de São Paulo
para que os registradores do estado possam fazer o processo de regularização fundiária
de forma simplificada, desde que obedecidos os requisitos legais, porém sem o
rigorismo técnico que têm prevalecido. Em outros estados, essa simplificação já
existe.
A forma de interpretar a legislação pode mitigar os efeitos danosos
dela. Estou feliz em estar aqui hoje e poder ouvir as palavras do desembargador
Gilberto Passos de Freitas, da doutora Tânia Ahualli, e do doutor Venicio Salles.
Parece que o Tribunal de Justiça de São Paulo, mais especificamente a Corregedoria
Geral da Justiça, caminha no sentido de interpretar as leis de forma a facilitar
o acesso ao registro.
George Takeda, vice-presidente do Irib: “proponho
a criação de regras para que se possa identificar precisamente o proprietário,
caso sua qualificação não conste no registro”BE
– Qual a proposta que o senhor considera essencial para constar do provimento
que deverá ser editado a respeito da regularização fundiária em São Paulo?
George Takeda – Dentre as várias colocações que fiz, uma diz respeito à criação
de regras para que se possa identificar precisamente o proprietário, caso sua
qualificação não conste no registro. Ou seja, regras que possibilitem essa identificação
e que esses dados pessoais possam ser inseridos para serem conciliados com a qualificação
do título, de maneira que possamos ter a certeza de que se trata da mesma pessoa
para o registro do título.
BE – O senhor entende que isso facilitaria
o processo? George Takeda – Facilitaria muito para os casos
em que o título não está muito bem qualificado no registro. Às vezes consta apenas
o nome na qualificação e quando surge um compromisso de compra e venda, com o
RG e CPF discriminados, ficamos sem saber se é a mesma pessoa ou não. Essa questão
existe até no provimento do Rio Grande do Sul.
“É preciso entendimento
comum de como enfrentar esse grave problema social, que é a irregularidade documental
e registrária” – Miguel Reis Afonso, secretário de política urbana de Suzano”.
BE – Qual sua opinião sobre a audiência pública e as conclusões dos trabalhos?
Miguel Reis Afonso – Acho extremamente oportuna a realização dessa
audiência pública e a iniciativa do Irib é coincidente com o próprio momento que
vivemos, de debate de vários instrumentos legais para adaptá-los à modernidade
a partir da Constituição federal. Temos o Estatuto das Cidades os planos diretores
e a própria revisão da lei 6.766, em que o Irib teve papel fundamental.
Também
é preciso modernizar a legislação no estado de São Paulo para enfrentar essa questão
da regularização fundiária. Temos de avançar, por isso entendo que a iniciativa
dessa discussão pública é extremamente importante. Acho que o Irib é um ator que
efetivamente contribui com o debate e pode criar condições para que os municípios
tenham instrumentos para procederem a regularização. É preciso haver um entendimento
comum de como poderíamos enfrentar esse grave problema social, que é a irregularidade
documental e registrária.
Estou muito satisfeito, tenho certeza de que
temos muito a contribuir para o bom andamento dessas questões. Concluímos no começo
do ano passado, em Suzano, o plano de erradicação de áreas de risco. Hoje, estamos
concluindo o plano de regularização fundiária e estamos apontando 98 loteamentos
com algum tipo de irregularidade. Esses loteamentos abrangem cerca de 20 a 30
mil pessoas. Em vista disso, vamos investir nos procedimentos de regularização
para vencer mais essa etapa. Fizemos ainda, a entrega de 1.200 títulos de concessão
especial de moradia, com base na medida provisória 2.220/01.
No entanto,
um provimento que pudesse viabilizar o registro e o cadastro desses imóveis, seria
de fundamental importância. Destaco que, na região metropolitana, temos ainda
um grave problema: a área de mananciais. Aproximadamente 73% da região metropolitana
de São Paulo encontra-se em área protegida, por isso insisto na necessidade de
se modernizar a atual legislação para enfrentarmos esse problema.
“Precisamos
que o cartório tenha mais autonomia para operacionalizar a regularização fundiária”
– Rosane Tierno, assessora da secretaria de Assuntos Jurídicos de Santo André
BE – Qual sua opinião sobre a audiência pública e as conclusões dos trabalhos?
Rosane Tierno – Achei excelente a iniciativa da audiência pública. Hoje a
regularização fundiária se processa nas varas de registros públicos, é um processo
judicial. Precisamos que o cartório tenha mais autonomia para operacionalizar
a regularização fundiária concomitantemente com a retificação das áreas, ou seja,
abre-se um título, a matrícula mãe, e se faz a regularização de forma concomitante
à retificação. Outro aspecto que merece destaque é a situação dos confinantes.
Não faz sentido esse grande número de notificações de confinantes num processo
de retificação, o que praticamente inviabiliza o processo, sendo que se tem um
desenho geográfico do parcelamento que não vai ser alterado. A proposta é para
que a pessoa que se sentir prejudicada possa postular em juízo a redefinição de
suas divisas. Outra proposta interessante é aumentar o rol de pessoas legitimadas
a entrar com pedido de regularização fundiária junto ao cartório. Seriam incluídas
nesse rol as associações de moradia e os representantes de moradores formalmente
constituídos, uma vez que hoje eles têm de esperar passivamente o processo de
regularização, que fica a cargo da prefeitura. Esses são os aspectos abordados
mais importantes.
Maria Lúcia Reffinetti Martins, urbanista e professora
da USP: “quando se tem condições de intervir, para regularizar, a situação jurídica
daquela propriedade impede que se faça” BE – Qual sua opinião
sobre a audiência pública e as conclusões dos trabalhos? Lúcia
Reffinetti Martins – Estaremos sempre com as iniciativas de regularização
dos assentamentos. Hoje, mesmo que o poder público tenha recursos para investir,
não consegue implantar infra-estrutura e fazer uma série de obras e intervenções
que melhorariam as condições sociais e ambientais, uma vez que ele fica impedido
de fazer. Se a situação é inteiramente irregular, nem o próprio poder público
pode atuar e ficamos no pior dos mundos. A situação irregular aconteceu ao longo
do tempo, e quando se tem condições de intervir, para regularizar, a situação
jurídica daquela propriedade impede que se faça. Pretendemos melhorar as condições
ambientais e sociais dessa população, e esse trabalho de regularização é muito
importante. Portanto, cumprimento os autores da iniciativa e podem contar conosco
para aprofundar essa discussão da relação entre a regularidade, as condições urbanísticas
e as condições dos moradores.
Ronaldo Lacerda, coordenador de
movimentos pró-moradia: “todos se uniram para tentar resolver esse problema que
há anos se perpetua”
BE – O que você está achando da audiência pública, das propostas que estão
sendo discutidas? Qual proposta para o provimento poderia auxiliar os movimentos
pró-moradias? Ronaldo Lacerda – A nossa presença aqui hoje
é o resultado de uma aproximação com os cartórios, principalmente o cartório de
Diadema. Essa audiência pública é riquíssima para nós do movimento. Nunca tivemos
acesso a esses debates e agora estamos acompanhando as várias discussões feitas
no âmbito do movimento serem debatidas aqui por autoridades, visando à solução
dos nossos problemas de regularização fundiária e registro. Antes, essa era uma
discussão isolada, feita somente por um dos setores, o cartório, o movimento,
ou o governo do estado. Agora todos se uniram para tentar resolver esse problema
que há anos se perpetua.
BE – Quantas pessoas do movimento estão
presentes na audiência pública? Ronaldo Lacerda – Cerca de
55 pessoas que vieram de pé no ônibus. Outras pessoas gostariam de ter vindo,
mas não tivemos condições de alugar mais um ônibus. Várias pessoas que estão aqui
são da coordenação do movimento, mas os próprios moradores das áreas também fizeram
questão de vir porque são diretamente afetados pelo problema da irregularidade.
É importante que eles estejam aqui para entender essas discussões e, também, para
entender que as coisas não são tão simples, porém, com esforço e boa-vontade de
todos os órgãos, dos cartórios, do Irib, é possível resolver. Apesar da nossa
dificuldade de mobilização, essas pessoas estão aqui esperando serem atendidas
no processo de regularização e de titularidade. Todos conhecem a experiência positiva
do Jardim das Praias, em Diadema, que obteve sucesso no processo de regularização
e agora já estamos numa segunda etapa, o registro dos títulos. Uma das nossas
propostas é discutir como esses moradores poderão ter acesso ao registro, porque
de nada adianta todo um esforço do cartório, do poder público, do movimento, se
as pessoas, por uma questão financeira, não conseguem ter esse acesso. Portanto,
estamos discutindo uma proposta para resolver essa questão. O ideal é que os moradores
possam, com a liberação do cartório, ter a sua escritura em mãos, de modo que
todos sejam incluídos socioeconomicamente e possam usar seu título para financiar
uma reforma na casa, etc. O título é um documento importante, mas muitas pessoas
podem não ter acesso por conta de sua condição financeira. Estamos aqui também
para discutir essa questão.
Entrevista com Terezinha de Jesus Feitosa,
coordenadora de movimento pró-moradia: “queremos saber se realmente vamos conseguir
nosso objetivo, que é o título das casas”
 |
| Foto Julio Vilela: arquivo Irib |
BE – O
que a senhora está achando dessa iniciativa de audiência pública para que a população
possa ouvir e entender o que está acontecendo? Terezinha de Jesus
Feitosa – Queremos saber se realmente vamos conseguir nosso objetivo, que
é o título das casas. Como sempre digo, não queremos nada de graça. Queremos pagar,
mas queremos ter nossos documentos, nossas escrituras registradas. Esse é o maior
sonho de todos nós. E que, a partir de agora, tenhamos mais facilidades. Estamos
tendo muito despejo nas áreas públicas, nas favelas, e não queremos que isso aconteça.
Sempre vou às reuniões que me convidam, e estou gostando muito desta. Foi uma
iniciativa muito valiosa para nós.
(Colaboração reportagens: Patrícia
L. Simão; fotos Carlos Petelinkar)